Ontologias

Outubro 17, 2009

“Que sociedade estamos a construir?”

Arquivado em: Educ_Form, Leituras & Reflexões, Perspectivas, ética — enfermped @ 9:13 am

“Que sociedade estamos a construir? Que mundo vem aí?” As perguntas, tornadas um pungente requisitório, foram, há dias, formuladas por um trabalhador da France Telecom, numa manifestação contra o processo de “reestruturação” da empresa, cujos resultados têm conduzido à barbárie. Vinte e quatro trabalhadores suicidaram-se, nos últimos dezanove meses, e mais treze foram socorridos quando se preparavam para pôr fim à vida.

http://1.bp.blogspot.com/_HV-HKP8B360/SG0-PLThVhI/AAAAAAAAADY/4eLdqxYVGzk/S1600-R/Chaplin.jpg

“Em nome da “competitividade” e em obediência às leis do mercado, um “gestor”, Louis-Pierre Wenes, procedeu, a partir de 2005 (ele entrara na empresa em 2002), adjuvado por Didier Lombard, à “modernização” da empresa, o terceiro operador de telemóveis da Europa e o primeiro fornecedor de acesso à Internet.

A brutalidade das decisões não olhou a meios para justificar os fins. Diz a France Press que “o plano redundou num controlo cerrado dos funcionários, dos tempos de pausa, uma pressão insuportável por ganhos de produtividade e desumanização nas relações laborais. Os comunicados dos sindicatos sublinham a incerteza organizada sobre a permanência de cada posto de trabalho, mudanças forçadas de funções, pressões insidiosas para que os trabalhadores se demitissem ou aceitassem despromoções, tentando fazê-los responsabilizar-se por essas novas situações.”

O “mercado”, o “neoliberalismo” e a globalização atingiram novos patamares de infâmia. Em Portugal desconhece-se a estatística de suicídios causados por compulsões semelhantes, e o facto de estarmos à beira dos setecentos mil desempregados deveria preocupar, seriamente, aqueles que nos governam. A desumanização que se regista no mundo do trabalho explica-se pelo facto de o “homem de organização”, quero dizer: o “gestor”, não pode permitir-se ter princípios ou escrúpulos: deve, isso sim ter reflexos.

A degradação da vida empresarial resulta dessa cartografia de horrores que consiste nos objectivos a atingir, nas etapas que se tem de percorrer, e dos lucros que terão de ser rápidos e vultosos. O “gestor” é muitíssimo bem pago para ser um cão-de-fila. Um universo sem paixões, gelado, uma mistura de indiferença humana com uma selvajaria abstracta.

“Que sociedade estamos a construir? Que mundo vem aí?” As dramáticas perguntas adquirem um novo relevo, quando se sabe que as “soluções” aplicadas pelos tais “gestores” revelam-se ineficazes e conduzem as empresas, mais tarde ou mais cedo, à falência. À falência económica e financeira, porque a falência moral já habita no corpo de quem as dirige.

A “organização”, o “grupo”, correspondem a esse capitalismo predador, que mantém uma “democracia de superfície”, feroz e impositiva, que tem aniquilado sindicatos, partidos progressistas, organizações cristãs recalcitrantes, homens e mulheres, sobrepondo uma cultura que provoca a renúncia de pensar. O poder económico a sobrepujar o poder político. Ainda há semanas, o eng.º Francisco Van Zeller, presidente da CIP, se opunha, veementemente, à casualidade de o PS estabelecer acordos, parlamentares ou outros, com o Bloco de Esquerda. A sobreposição chega a ser aberrante. E o desprezo pela democracia, mesmo tão fanada como a portuguesa, associa-se a um postulado segundo o qual estaríamos no fim das ideologias. É verdade que o PSD nunca foi “social-democrata” (quando muito, conservador-liberal), e o PS foge do socialismo como Satanás da cruz (salvo seja). Esta confusa apropriação indevida de nomes causou estragos irreparáveis na “democracia” que por aí está.

O panorama nacional é assustador. Salvam-se os bancos, em nome não se sabe muito bem de quê e de quem, e destroem-se vidas. O tema da emancipação da humanidade não perdeu prestígio nem poder. As grandes questões do trabalho, do capitalismo, das novas relações sociais, do desemprego e da subida da miséria e da fome são omissos nos chamados órgãos de informação. No caso português, a ausência destes temas obedece a indicações e a ordenanças. As mais radicais das ideias reaccionárias afloram em numerosos artigos, comentários e debates. É a “democracia de superfície” em toda a sua expressão. Repare-se que o caso da France Telecom mereceu medíocres chamadas de primeira página, e notícias reduzidíssimas no interior dos jornais. E este é um assunto que, pela sua natureza trágica e pela dimensão social que exprime, deveria adquirir enunciações mais amplas.


Há algo de dissolução rápida nas nossas sociedades. Quando os laços relacionais são tão abruptamente cortados, como na France Telecom, temos de perceber que o problema não é isolado. E que a ameaça começou a constituir como perigo imediato. Nomeemos os problemas e saibamos enfrentar os riscos decorrentes. A Imprensa e os jornalistas honrados têm uma palavra a dizer. Não será a última mas é, certamente, a mais importante. Se eu lhes merecer, contem comigo”.

Baptista Bastos in Jornal de Negócios, 09 Out. 2009

recebido por e-mail

Setembro 29, 2009

A Mafaldinha fez 45 anos

” Mafalda, a personagem de banda desenhada que o argentino Quino idealizou para um anúncio a electrodomésticos, celebra hoje 45 anos no papel de uma das mais improváveis e divertidas comentadoras políticas da actualidade.

De traços simples, cabelo negro farto e muito opinativa, Mafalda surgiu pela primeira vez a 29 de Setembro de 1964 nas páginas do semanário argentino “Primera Plana”. Quino, então com 32 anos, nunca adivinharia o sucesso daquelas tiras humorísticas, que se prolongaram por nove anos.

Joaquin Lavado (Quino) imaginou Mafalda para um anúncio publicitário a uma marca de electrodomésticos, no qual lhe pediram que desenhasse a história de uma família típica da classe média.

A banda desenhada não chegou a ser publicada, mas Quino recuperou a personagem Mafalda quando o convidaram para publicar no “Primera Plana”, na altura um jornal que procurava fazer uma reflexão crítica da actualidade argentina e internacional”.

ver mais …

Junho 29, 2009

1958-2009

Arquivado em: Leituras & Reflexões, Lembranças, Notas à margem — enfermped @ 7:24 pm

Sem tempo para ser criança …

Já correu muita tinta sobre a sua vida – eventualmente umas serão mentiras outras verdades – mas certamente será para sempre e, para muitos milhões, o rei do pop … pois deixou uma história inesquecível de momentos fantásticos de televisão, de rádio e de palco …

Aqui fica uma pequena homenagem a um homem que, à sua maneira, lutou pela igualdade étnica, despertou as pessoas para os problemas da fome em África e na América Latina (Brasil) e para a protecção das crianças.

Na hora da despedida ficam algumas das palavras de Mandela:

“Michael was a giant and a legend in the music industry. And we mourn with the millions of fans worldwide,” the message from Mandela and read out by Smokey Robinson said.

“We had great admiration for his talent and that he was able to triumph over tragedy on so many occasions in his life”.


Que descanse em paz!

R.S.

Junho 7, 2009

Europeias 2009

Arquivado em: Perspectivas, Projectos, Reflexões — enfermped @ 12:48 pm

Maio 30, 2009

Inovação conceptual

Arquivado em: Leituras & Reflexões — alexsousa @ 7:14 pm

Diz Nancy Nersessian no seu livro “Creating scientific concepts”, MIT 2008, que a emergência da inovação conceptual é lenta, contrariamente à imagem popular que existe da ciência. Diria eu, que continuamos tantas vezes a falar em «novas tecnologias» parte das quais já aplicamos há 30 ou mais anos. Publiquei alguns trabalhos sobre redes neuronais artificiais no final dos anos 80 e mantenho um olhar interessado nesse campo; ainda hoje, é fácil observar que por ali, está em andamento um processo orgânico, passo-a-passo, até que um dia destes sentiremos – com certeza – o tal «flash» de mudança conceptual.

Na pista da terminologia de Kuhn, respigada do “The Structure…” podemos recordar que:
- Os paradigmas podem determinar a ciência dita normal sem intervenção de regras da descoberta ou partilha de suposições. Isto justifica-se, parcialmente, porque:
1. É muito difícil descobrir as regras que balizam as tradições de uma particular ciência normal;
2. Os cientistas nunca aprendem conceitos, leis e teorias, em abstracto e por eles próprios;
a) Eles geralmente aprendem essas coisas, com e através das suas aplicações.
b) Novas teorias são pensadas em tandem com as respectivas aplicações, tudo isto no âmbito de um fenómeno concreto.
c) “O processo de aprendizagem de uma teoria depende do estudo das suas aplicações”.
d) Os problemas que os investigadores encontram ao longo da sua carreira são sempre modelados, estreitamente, com base em empreendimentos e realizações prévias.

Ainda Nancy, no seu livro:
« Those who study the records of such creations, however, offer a different characterization. Novel concepts arise from attempts to solve specific problems, using the conceptual, analytical, and material resources provided by the cognitive-social-cultural context in which they are created. They are located within “problem situations.” So, to understand creativity, it must be located not in the act but in these problem-solving processes.»

A parte da Física em que me sinto mais à vontade é indubitavelmente a Electricidade, de cuja história gosto particularmente. Quanto mais releio e aprofundo o método histórico mais me convenço que os maiores génios erram com muita facilidade logo que se afastam da matéria que dominam, ou seja, quando se aventuram pelo meio de paradigmas alheios.
Atrevo-me a situar o ponto de partida da Electricidade, em meados do século XVIII, de uma situação recreativa para verdadeiras experiências científicas, quando se percebe que a electricidade é transportável de um corpo para outro, através de um fio ou por simples aproximação. Para lá da descrição pormenorizada, começa o uso da instrumentação, da quantificação, culminando esta colecção de observações na teoria de Coulomb.
É aqui que a Electricidade deixa de ser um brinquedo.
Citando Armando Gibert: “A elaboração desta teoria (Coulomb) deve-se a uma atitude extremamente avançada quanto a critério científico. Coulomb pensou, reflectiu sobre resultados empíricos, fez algumas hipóteses e imaginou experiências que as viessem confirmar ou incriminar. Para isso teve de conceber uma delicada instalação experimental e realizar com ela medições exactas. Coulomb dominou o que ainda hoje se pode considerar como a essência do método de investigação científica experimental, 200 anos antes do nosso tempo.”
Não ficou por aí a percepção que Coulomb tinha das exigências de uma descoberta científica e das responsabilidades do cientista. Decidiu repetir as suas experiências utilizando um método totalmente diferente do anterior. Das leis aplicadas às medidas que efectuou, deduziu a confirmação dos resultados anteriormente obtidos.

Maio 10, 2009

Reflectindo …

Arquivado em: Educ_Form, Perspectivas, Reflexões, Uncategorized — enfermped @ 7:07 pm

Heidi e Alvin Toffler, ensaístas, autores de obras como “A Terceira Vaga” ou “O choque do futuro”, falam do sistema educacional e deixaram-nos muitas questões para reflectir. Especialmente a quem gosta de educação, aos educadores, aos professores…

R.S.

Maio 2, 2009

Pos-Designing of Scientific Researche Programmes [6]

Arquivado em: Reflexões — alexsousa @ 12:50 pm

Tenho dois livros «grandes» que nunca chegarei a ler completamente e que me acompanham desde 1967, pelo menos, de casa «grande» em casa «grande». Acontece que fui criado culturalmente por uma irmã da minha avó Augusta, de seu nome Tia Laura, que me marcou, entre outras coisas, pelo amor aos grandes livros. O menos lido chama-se “História das ideias económicas”, Charles Gide & Charles Rist; publicado em Portugal aí pelo pós-segunda guerra mundial e mostra-nos uma visão da escola francesa sobre a economia.
O outro livro grande é a História da Ciência, W. C. Dampier, com uma bibliografia «linda» que termina aí pelos anos 1940.
O primeiro tem quase 900 páginas e o segundo cerca de 700. São resmas e resmas de referências que me ajudam a situar por aqui e por ali. É por andar por aí, que tenho vindo, passo a passo, a tentar tapar grandes buracos de ignorância própria.
Vem isto a despropósito de uma(s) reunião(s) que tenho andado a efectuar, com gente de nome próprio e apelidos de família e altos créditos firmados no chamado mundo do saber-fazer. No entanto, reinventar coisas do dia-a-dia, nunca fez mal a ninguém, pelo que, eu pecador me confesso, dono de uma certa morbidez pelo tema do método e da metodologia.
Forçado pelo acto de «tomar conta» dos projectos de investigação de 114 «gurus» numa feira de mais ou menos mil e quinhentos espécimes raros, não tive nem tenho outro remédio senão voltar às origens e tentar quebrar o cepticismo das imensas maiorias silenciosas com que lidamos nos mundos que são dependentes de emprego & salário. Em especial, quando alguns deles fizeram 5 mestrados e 2 doutoramentos. “Et pour cause…”
Meteu-se na minha cabeça que os investigadores devem compreender os princípios da comunicação na área da ciência, antes de trabalhar em sistemas reais. Quando a comunicação não é nada, mas apenas teoria, os investigadores abandonam o seu núcleo duro de informação e ficam a «nadar» nos laboratórios, mostrando grande insegurança no explicar como todas as peças do projecto se encaixam. Eles sabem como manipular equações, mas não têm grandes ideias sobre como funciona um sistema real.
Tenho pedido aos investigadores (FC) que, durante as reuniões de projecto, apresentem a teoria e a sua aplicação ao mesmo tempo. Os cientistas – muitos deles são isso mesmo – devem utilizar ferramentas computacionais para a concepção e teste das suas propostas de solução do problema. O aperfeiçoamento destes profissionais nas técnicas de simulação permite-nos a todos, uma melhor ligação da teoria à aplicação concreta e tudo isto em ambiente interactivo.
O investigador que está a proceder a uma apresentação do seu trabalho em curso pode responder a uma pergunta em plena palestra, por exemplo, executando uma simulação. Os seus colegas de projecto podem ver a teoria consubstanciada no sistema, visualizada no ecrã. Podemos pedir para prever o que irá acontecer se mudar ou não esse parâmetro, e/ou em seguida, mostrar os resultados de cada alteração produzida. Desta forma, a teoria torna-se palpável (‘tangível’), e alguns de nós, ficamos menos intimidados com a matemática.

Nem sempre os actuais investigadores da ciência, aplicada ou não, entendem os objectivos da filosofia da ciência, que são descrever, explicar, fazer entender o que outros fizeram e como fizeram isso, demonstrando que foi muito bem feita a investigação básica até aí levada a cabo. Por conseguinte, para alcançar este objectivo, há uma classe de filósofos que olham de volta as grandes conquistas na evolução da ciência moderna.
O Romantismo via o objectivo da ciência como entendimento interpretativo, que é uma ontologia mentalista adquirida pela introspecção. Chamaram a uma linguagem contendo esta ontologia “teoria”. A ciência com maior sucesso no plano objectivo das humanidades é a economia que, desde o desenvolvimento da econometria (Schumpeter anos 40), permite previsão (forecasting) e política, assim, o objectivo das humanidades passa a estar misturado com as ciências naturais no seu objectivo de previsão (prediction) e controlo. Em breve voltaremos ao método da Econometria, até porque uma das encomendas importantes ostentadas na carteira de projectos é precisamente a construção do Modelo Econométrico da Indústria dos XYZ.
Andar de cá para lá e de lá para cá com o livro de Kuhn traz-nos de volta ao puzzle, sempre novo, da relação entre metodologia normativa da ciência e história positiva da ciência. O puzzle é mais ou menos este (escreverei pelo lápis de Blaug): acreditar que é possível escrever a história da ciência «como ela de facto ocorreu», sem de qualquer modo pré-julgar a distinção entre ciência «boa» e ciência «má», sem quaisquer noções prévias de uma prática científica sã, é cometer a falácia indutiva na redacção da história intelectual. Se o Popper está certo quanto ao mito da indução, aqueles que querem «contá-la como é» acabarão por contá-la «como deveria ser»: ao contarem a história de desenvolvimentos passados de um modo em vez de um outro, estarão a revelar implicitamente a sua visão da natureza da explicação científica. Ou seja, todos os enunciados na história da ciência estão metodologicamente comprometidos.
Por outro lado, pareceria que todos os enunciados sobre a metodologia da ciência estão também metodologicamente comprometidos. Pregar as virtudes do método científico, enquanto se ignora totalmente a questão de saber se os cientistas, de hoje ou os do antigamente, praticaram de facto esse método, é seguramente arbitrário; além disso, na prática, até para Popper é impossível resistir à referência à história da ciência como uma justificação parcial das suas concepções metodológicas. Parecemos, pois, estar enleados num círculo vicioso, que implica a impossibilidade tanto de uma historiografia da ciência totalmente descritiva e metodologicamente isenta, como de uma puramente prescritiva e não-histórica metodologia da ciência. Discutindo o paradoxo do teste de uma metodologia científica pelas práticas dos cientistas, Medawar (1967) notou: “Se assumirmos que a metodologia é incorrecta, também o serão os nossos testes da sua validade. Se assumirmos que é correcta, não adianta submete-la a teste, pois os testes não poderão validá-la.”

Abril 27, 2009

Pos-Designing of Scientific Research Programmes [5]

Arquivado em: Reflexões — alexsousa @ 12:14 pm

Tal qual ocorre noutros centros de investigação (tecnológica) o enunciado da respectiva missão define o propósito fundamental do nosso trabalho (FC), bem como a responsabilidade assumida face às pessoas que nele estão integradas e a comunidade que nos sustenta financeira e socialmente (TCNL). Promovemos e levamos a cabo investigação aplicada num contexto internacional, de utilidade directa para as empresas públicas e privadas e de amplo benefício para a sociedade como um todo. As actividades de investigação são orientadas para aplicações e para obtenção de resultados. Sempre que os nossos programas/projectos de investigação exigem ou imponham componentes ditas de investigação básica, avançamos com convénios devidamente balizados, formalizados com entidades e instituições vocacionadas para este tipo de investigação científica.
Parte do nosso programa de trabalho consiste em efectuar investigação pré-competitiva financiada por fundos públicos. Isto constitui a base do contrato de projectos de investigação realizados para os nossos clientes.
Posto este preâmbulo, deve dizer-se sem reticências, que um programa de investigação científica é um serviço que «alguém» deve pagar. Por isso, o lado menos atractivo da equipa de investigação, ou seja, planeamento, gestão do projecto, controlo financeiro, auditoria interna, etc. é visto como «menos valioso», sob a forma de uma camisola burocrática que nada (?!) tem a ver com a muy nobre e sempre leal actividade de investigar segundo cânones cientificos a solução para um problema.
Discordamos, alto e bom som. Que não seja o físico teórico, grande promessa do “black hole” a cuidar do bom andamento da matriz do projecto, aceitamos, mas isso não invalida, bem pelo contrário, que não faça parte da equipa um profissional competente, treinado nestas lides: “qual é a velocidade a que se move o projecto?”; “quanto já gastamos?”.

Desde muitos anos atrás, sempre nos defrontamos com o insustentável antagonismo entre os partidários da perspectiva «descritiva» que nos apresentam «uma visão de como as coisas são» e os adeptos da perspectiva «normativa» ou «prescritiva» que traduzimos como um guia indicador, ou «como devemos agir em circunstâncias ideais».
Ao longo do nosso trabalho, (quase sempre) concentramo-nos no âmbito de matrizes «normativas». De modo que, na presença de um projecto de investigação, (quase sempre) consideramos a escolha racional, por si só, sem ser confundida pelas nossas limitações humanas, supondo que a nossa decisão racional tem poderes infinitos de discriminação. Se duas temperaturas são distintas, então eu, decisor, devo assumir a preferência por uma delas, apesar de, no caso concreto, não conseguir sentir a diferença.

Confesso que sou um «prático», daqueles que pensam muito, mesmo muito no problema que tenho de (ajudar a) resolver, não obstante e sempre que me deixam, começo o «ataque» a um caso interessante pelo lado do objecto. Desde logo, por uma coisa que os economistas juram respeitar, que é a «análise custo-benefício» do projecto.
Esta técnica, é provavelmente o modo de análise da decisão mais difundida entre profissionais da governação e das agências públicas. Existem variados estilos subjectivos de análise, para os quais se pede que sejam expressos sob a forma de julgamento. Em contraste, a análise custo-benefício tenta ser objectiva. Os profissionais que dominam a técnica, procuram identificar a alternativa que apresenta o custo mais efectivo – no sentido económico – tantas vezes divorciada do julgamento do decisor. A análise custo-benefício, tipicamente, é preparada para, não com, o decisor. O seu fim é proporcionar-lhe informação: nada mais do que isso.
Não devemos ignorar que há pelo menos duas «escolas» no sentido da aplicação desta técnica. Uma, digamos que é a «escola da tomada de decisão», assume explicitamente que o seu propósito é o de auxiliar o decisor. Esta abordagem, aceita e espera «inputs» do tipo julgamento, avaliação, sentença, opinião. Verdadeiramente, tem adoptado muitas das técnicas da análise da decisão dita Bayesiana.
Outra «escola», chamemos-lhe «abordagem do tipo Pareto», procura valores alternativos em termos puramente económicos, calcula os custos finais da obtenção de determinados benefícios e efeitos, enunciando também os efeitos nocivos que devem ser atribuídos para cada valor financeiro líquido calculado.

O objectivo da análise custo-benefício consiste em fornecer uma avaliação objectiva financeira de cada alternativa, «antes de». Fazer isto, tem a ver com a identificação de todos os efeitos potenciais que o projecto envolve e respectivas grandezas. Em seguida, atribuem-se custos a cada um desses efeitos em concordância com o mercado onde o projecto vai evoluir. Finalmente, comparamos o valor líquido dos benefícios das alternativas com os valores líquidos dos efeitos prejudiciais. Todos os efeitos são reduzidos a valores financeiros, no entanto devem ser vistos como intangíveis.

O exemplo com que vamos ilustrar aquilo que tem vindo a ser escrito, debruça-se em linhas muito incipientes, sobre um caso concreto que temos entre mãos e que não envolve nenhum segredo de Estado. O centro de investigação (FC) foi solicitado por um cliente Governamental para estudar soluções de combate a uma praga florestal. O problema afecta dezenas de milhares de produtores, está disseminado por 3 países, pertence (no nosso caso) à área da biologia ambiental e tem sido quantificado com prejuízos astronómicos.
Recebemos e analisamos imensa literatura descritiva do fenómeno. Independentemente, de outras considerações, podemos dizer que o método de trabalho começa pela execução de uma análise normativa que, a um nível muito simples pretende apenas guiar a nossa escolha pelo exemplo. Construímos modelos de decisão para o problema que está em estudo, descrevemos assim as alternativas a que podemos fazer face e procuramos prever as respectivas consequências. Esta fase termina com uma lista de possíveis linhas de investigação concentradas no mesmo problema, acompanhadas dos respectivos “drafts” de projecto. A tarefa está agora em representar cada alternativa por um vector de níveis de realização de uma série de critérios importantes.
Quais critérios? Resumindo brevemente, a discussão no seio do grupo de Biologia Ambiental, acrescido dos directores do centro que tem a ver com estas coisas, pode ser objecto do seguinte procedimento:

Qual é a principal consideração na escolha entre alternativas?
- Maximização custo eficácia.
Sim, mas quais são as determinantes do custo-eficácia?
- Financeiras, temporais e sociais.
Quais são os factores mais importantes? … e por aí, por aí, por aí…

custo_eficacia1
Temos aqui, neste mapa conceptual, uma análise do conceito custo-eficácia.
Ojo! Com efeito, custo-eficácia é um termo sem sentido ou seja, no vácuo, podendo-se dizer que esta discussão obriga sempre a definir o termo adequado para o respectivo contexto.
O grupo que leva a decisão a bom porto tem sempre alguma maneira de completar a análise que tem de ser feita. Primeiro, discute aprofundada e cuidadosamente onde e como podem ser identificados os factores que são importantes para a decisão. Assumimos que sempre fazemos isso. Segundo, é preciso convergir para a forma e o modo como vamos medir o nível de execução para cada uma das alternativas face aos critérios que elegemos previamente.
Há algumas zonas difíceis, nomeadamente quando se avaliam factores sociais. Tenhamos em conta que se trata muitas vezes de conseguir um método para quantificar efeitos qualitativos de uma nebulosidade asfixiante. Quase sempre a estatística dá uma primeira ajuda via «proxy variable» que se espera possa ser altamente correlacionada com o efeito, o que é comum neste tipo de trabalho.

Como resultado desta análise, cada uma das alternativas em discussão, pode ser representada por um vector de n números:

a = (a1, a2, a3, a4, a5, a6,…)

É importante perceber que esta representação é apropriada para este hipotético caso no que se refere à percepção do problema. Outros grupos, face ao mesmo problema podem gerar hierarquias e mapas conceptuais completamente diferentes.
Existe uma profusão de terminologia na literatura dedicada a este campo, sem que haja concordância quer na semântica quer no uso. No nosso trabalho (FC) seguimos a seguinte nomenclatura: as dimensões representativas das alternativas são conhecidas como atributos, ainda que algumas vezes possam ser reconhecidas como critérios.
No exemplo do mapa acima, podemos ver seis atributos afectados com valores, mais três atributos que não estão valorizados mas que o deverão ser, no decorrer do processo.
Um objectivo é uma dimensão que possui em anexo a indicação de «boa» ou «má» e que categoriza essa mesma dimensão, podendo obviamente, usar-se uma escala aplicável. Aqui, “minimizar o custo do projecto” é um objectivo, o qual indica que são preferidos os baixos custos.

Abril 26, 2009

Pos-Designing of Scientific Research Programmes [4]

Arquivado em: Reflexões — alexsousa @ 1:54 pm

Imaginemos que o nosso programa de investigação científica está alinhavado e que, inclusive, já foi distribuído, mesmo que sob a forma de rascunho (‘draft’ é mais chique), por todos quantos influem na distribuição da «massa». Imaginemos ainda, que o nosso centro de investigação abrange 114 pessoas, 72 das quais doutoradas, o que outorga a cada reunião de seguimento do plano estratégico do centro a qualidade de «mortal». Mais, o nosso centro © pertence vai-que-não-vai a um agrupamento (T) de oito centros de investigação, que englobam cerca de 1500 investigadores. Disse bem, não foi engano, são só mil e quinhentos investigadores, que se dedicam a coisas tais como pesca e/ou robótica. Salários pagos, religiosamente, ao mês e entradas diárias às oito horas da manhã… ou seja, quase tudo menos conversar em torno da treta que, até pode existir, não sejamos ingénuos. Moral da história: nestes tempos de anomalia & crise, a exigência de comportamento ético perante o colectivo é «quase insuportável». Por cada hora (prevista) de reunião de análise da decisão, não restam dúvidas de que devemos dedicar, no mínimo, quatro horas para estudo, previsão & adivinhação do “futuramente”, já que o “passadamente” foi peditório para o qual já demos. Os mais velhos, grupo ao qual pertenço, não ignoram que, apenas a efectiva e factual prova de conhecimento (humildade, porque não), ganha pontos no confronto com a irreverência dos mais novos. Se é que os mais novos são, de facto, irreverentes…
Imaginemos com algum realismo, que a questão da linguagem, do método e da metodologia, está a merecer o mínimo de atenção. Muitos de nós, daqueles que têm direito a sentar à mesa, por «seniority» ou messianismo, percebem a importância da terminologia, mais ainda da ontologia do tema que se discute.

Não é indiferente exigir que se distinga entre «escolha» e «decisão»: uma «escolha» é feita intuitivamente, a maior parte das vezes, sem pensar; uma «decisão» requer pensamento cuidado e deliberação.

«Risco» é outra palavra gasta, com significado diverso para pessoas diferentes. Risco quer dizer que as consequências da nossa decisão são imprevisíveis.

Por “deficiência” educativa e cultura profissional, entendo que as nossas decisões impliquem o estabelecimento de CRITÉRIOS. Um «Critério» não é mais do que a especificação do procedimento a ser usado na identificação da melhor «alternativa» em qualquer problema. No sentido que nos preocupa, qual é a mais importante questão (isolada), para onde nos interessa dirigir o esforço máximo, no âmbito deste problema? Como eleger essa questão primordial?

«Rational» racional, lógico, é um adjectivo que enxameia as nossas discussões dedicadas à análise & decisão e no entanto, tantas vezes aplicado indevidamente. Grosseiramente, uma regra de decisão racional é compatível com certos princípios da boa tomada de decisão. Aqui, o significado de «racional» é dependente do contexto. Racional é uma palavra emotiva. Sugerindo ou adjectivando uma decisão como racional, eu faço batota; subliminarmente, estou a afectar os outros que comigo realizam a operação «análise da decisão», empurrando-os para a aceitação «no bom sentido» sem posterior discussão.

Abril 15, 2009

Reflectindo …

Arquivado em: Perspectivas, Reflexões — enfermped @ 6:41 pm

“Não haverá borboletas se a vida não passar por longas e silenciosas metamorfoses”

Rubem Alves

Página Seguinte »

Blog em WordPress.com.