Ontologias

Março 1, 2009

A espiral do silêncio [1]

Filed under: Perspectivas — alexandre sousa @ 7:00 pm

 

 abertzaleO País Basco celebra hoje a nona eleição autonómica desde a aprovação do Estatuto.

Concorrem 14 formações políticas e mais de 1,7 milhões de cidadãos,  são chamados a votar para eleger o Parlamento basco que decidirá quem é o novo lehendakari e dos quais votarão sempre, mais ou menos metade dos que estão inscritos. Estatisticamente, 33% da decisão está distribuída por Guipúzcoa (700000), 53% por Vizcaya(1100000) e 14% por Álava(300000). Uma vez que Guipúzcoa é a minha segunda pátria, há para mim, neste triângulo, todo um road map litúrgico: Zarautz onde medito, Azpeitia onde trabalho, Ondarreta onde me deito. Como se pode ver, não sou perdido nem achado nos três grandes núcleos de decisão: Vitoria , Bilbao ou San Sebastián.

Alguns dos meus amigo(a)s sabem e compreendem, desde o episódio do assassinato de Carrero Blanco – vivia eu em Madrid – que sempre mantive um especial interesse pela história da ETA, por tudo quanto se passa em torno da ETA, suas contradições, seus problemas; suas ambiguidades, entre outras razões, porque este ou aquele abraço mais apertado pertenceram à ETA e sempre me confrontei com esta obsessão: «qual o caminho que a ETA vai percorrendo». Por tanto estar informado sobre o que a ETA pensa e decide, é algo que sempre tenho intentado manter; assim vou lendo algo por aí – nunca excessivamente – sobre a ETA, porém, gosto muito de ler tudo o que me pareça importante. Ao fim e ao cabo, a maior parte do que consigo ler ou melhor, daquilo que posso dizer que li, acaba por ser bazofia. Há pouca neutralidade na hora de qualquer um se acercar com neutralidade e um critério puramente científico-informativo a um fenómeno tão apaixonante, que cria e desencadeia reacções a favor e reacções contra.

Qualquer especialista (amador acima de 50%) das ciências sociais ou da filosofia, que analise o tema do terrorismo, sabe uma coisa: sempre existiu uma grande sedução por parte dos políticos e dos terroristas em relação ao terrorismo e à acção terrorista. A dinâmica que cria, a encenação dos atentados, o real ou aparente heroísmo dos seus protagonistas… acabam seduzindo muitos escritores, jornalistas, também muitos políticos. Então, é claro que necessitamos de tranquilidade, de alguma relaxação para olhar toda esta historia recente, poder contrastar varias fontes sobre o que ocorre…

Qualquer um, ao acercar-se do mundo da ETA, ou do IRA, ou das FARC, vê emergir um fenómeno de mitificação dos grupos, das personagens e da própria violência. Contribui para esta mitificação a clandestinidade onde operam, o segredo próprio das suas actuações e a dimensão trágica que têm os atentados e crimes e que nos podem levar a traçar imagens desfocadas e parciais do que é o terrorismo. Pensar (?!) que para uma iniciativa destruidora da vida de outra pessoa tenha que ter por detrás uma grande causa, exija convicções superiores, até porque uma pessoa normal é incapaz de realizar actos dessa natureza. Vamos a ver: Esse fenómeno de exaltação não se produz apenas nos textos apologéticos de programas pró-terrorismo, muitos documentos, e outros tantos livros, que sem pretender glorificar os terroristas, desde posições de repulsa e recusa nítida da violência, ajudam inconscientemente a criar-lhes uma épica e a tecer lendas à volta de muitos deles.

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