Ontologias

Março 5, 2009

A espiral do silêncio [3]

Filed under: Perspectivas — alexandre sousa @ 10:46 am

ikurrina
Vistos com calma, os resultados das eleições regionais bascas parecem tornar realidade o paradoxo de uma vitória ampla do partido nacionalista e soberanista (PNV) ao mesmo tempo que prefigura a derrota do seu candidato, Ibarretxe e também do líder do sector independentista desse partido. O afundamento destes associados deixou os nacionalistas sem maioria absoluta e sem programa. Daí a complexidade da situação. Precisamente porque o panorama é complicado, convém respeitar escrupulosamente a lógica institucional. Ao partido nacionalista basco (PNV) corresponde-lhe tomar a iniciativa e apresentar, como partido mais votado, a sua proposta de Governo. Os Bascos (potencialmente) aplicaram-se a levar à prática o que Popper – mais ou menos o que também dissera Schumpeter – definiu como a essência da democracia, ou seja, “a possibilidade que outorga aos cidadãos o desfazerem-se dos seus governantes sem derramamento de sangue”.

Engana-se quem imagina que tudo isto é uma mera partida de xadrez, com duas forças monocolor e minoritárias (38% e 30%) nos votos, reclamando cada um per si, o direito a formar um governo regional. Num Estado composto por Regiões, cada uma delas procura ampliar a zona geográfica que constitui o seu mercado. Frequentemente, observamos conflitos inter-regionais, não existentes até há bem pouco tempo, porque as alterações profundas das vias de comunicação vieram quebrar o afastamento responsável pela ausência de concorrência entre si. Quando duas regiões, Madrid e Euskadi ou Madrid e Cataluña, têm raios de acção de supremacia que se sobrepõem, surge entre elas uma rivalidade económica. Pois bem, na maioria dos casos, cada região terá uma determinada oferta de qualidade diferenciada e melhores preços que a sua rival. Isto dependerá de diversos factores sobejamente conhecidos, matérias-primas, posse de tecnologias, educação, etc.etc.etc. A região, no seu caminho de progresso económico e social, na sua totalidade, tem vindo a evoluir para a dependência não de uma, mas de várias cidades. No caso Euskadi: Bilbao, San Sebastian, Vitoria, constituem um sistema de interdependência económica, criada artificialmente, destruidora da antiga unidade local auto-suficiente, para a substituir por uma unidade maior, que será a nação basca. A autonomia política da aldeia basca, perdida e separada por vales e montanhas, falante de uma variedade de dialectos Euskera, incapazes de se compreenderem uns aos outros, tornou-se impossível; a interdependência das necessidades económicas serviu de base à unidade política da nação – Vizcaya, Guipuzcoa e Alava. Em 30 anos, os preconceitos locais, e ainda as peculiaridades de costumes, ideias e tradições de cada vale, têm vindo a esfumar-se e a refundir uma consciência nacional comum, cimentada no falar Euskera. Sendo o intercâmbio intelectual mais frequente e mais rico nas cidades que no campo, nelas nascem as correntes principais do pensamento. O restante território limita-se a adoptá-las e a repeti-las; porque afinal de contas, é tão fácil vestir ideias feitas como trajes prontos a vestir.

A fluidez com que deslizam, agrupam e reagrupam os resultados das votações políticas nas formações partidárias defensoras do País Basco, é reconhecida por quem esteja no terreno e assista ao fazer e refazer de relacionamentos económicos por parte das comunidades de Zarautz e de Mondragon, por exemplo. A previsão não catastrofista aponta para um entendimento entre as duas forças mais votadas.
Deixar o grande patronato basco (PNV) fora do governo regional significa lançar de novo a «izquierda abertzale» e fazer esta voltar ao “local do crime”, uma vez mais, a apoiar os métodos violentos (terrorismo e kale borroka) juntamente com estratégias politicamente mais correctas como a desobediência civil (recordam-se de Gandhi?), numa mistura explosiva cujo principal objectivo é a desarticulação do sistema democrático. Herri Batasuna – braço político da ETA – e o MLNV não têm nenhuma intenção de abandonar as suas formas de luta para destruir o sistema institucional vigente. Desta forma, todos os motivos e imagens nacionalistas inseridas no seu programa (reunificação territorial, autodeterminação, euskera) são meros instrumentos tácticos para ir obtendo hegemonia no campo nacionalista, mediante o engano dialéctico. Um engano favorecido pelo desconhecimento do método dialéctico que é guia de análise e de acção utilizados pelo Herri Batasuna e MLNV. Movimiento de Liberación Nacional Vasco (MLNV), apresentou-se no período eleitoral recente sob a camisola do Askatasuna, na linguagem do juiz Garzon: “simple marca sustitutoria y alternativa de otras para garantizar el cumplimiento de lo dispuesto por ETA en el zutabe [órgano de expresión de ETA] 81”, o que quer dizer, avançar na construção nacional de Euskal Herria e portanto, estar presente nas instituições formando uma candidatura paliativa dos efeitos da ilegalização do HBatasuna O MLNV actua sempre com duas mãos e quantos desconhecem isto, só reparam nos movimentos que faz com uma delas, vêm unicamente o que oferecem com essa mão. Porém, por detrás desta forma de luta, há um mal entendido conceito de desobediência civil e dos seus objectivos que afirmam pretender, escondendo os pontos essenciais que se ocultam na mão da esquerda revolucionária basca: o salto revolucionário e a destruição do sistema democrático. Esperemos que o nacionalismo institucional não vá cair (outra vez) nesta armadilha.

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