Ontologias

Maio 2, 2009

Pos-Designing of Scientific Researche Programmes [6]

Filed under: Reflexões — alexandre sousa @ 12:50 pm

Tenho dois livros «grandes» que nunca chegarei a ler completamente e que me acompanham desde 1967, pelo menos, de casa «grande» em casa «grande». Acontece que fui criado culturalmente por uma irmã da minha avó Augusta, de seu nome Tia Laura, que me marcou, entre outras coisas, pelo amor aos grandes livros. O menos lido chama-se “História das ideias económicas”, Charles Gide & Charles Rist; publicado em Portugal aí pelo pós-segunda guerra mundial e mostra-nos uma visão da escola francesa sobre a economia.
O outro livro grande é a História da Ciência, W. C. Dampier, com uma bibliografia «linda» que termina aí pelos anos 1940.
O primeiro tem quase 900 páginas e o segundo cerca de 700. São resmas e resmas de referências que me ajudam a situar por aqui e por ali. É por andar por aí, que tenho vindo, passo a passo, a tentar tapar grandes buracos de ignorância própria.
Vem isto a despropósito de uma(s) reunião(s) que tenho andado a efectuar, com gente de nome próprio e apelidos de família e altos créditos firmados no chamado mundo do saber-fazer. No entanto, reinventar coisas do dia-a-dia, nunca fez mal a ninguém, pelo que, eu pecador me confesso, dono de uma certa morbidez pelo tema do método e da metodologia.
Forçado pelo acto de «tomar conta» dos projectos de investigação de 114 «gurus» numa feira de mais ou menos mil e quinhentos espécimes raros, não tive nem tenho outro remédio senão voltar às origens e tentar quebrar o cepticismo das imensas maiorias silenciosas com que lidamos nos mundos que são dependentes de emprego & salário. Em especial, quando alguns deles fizeram 5 mestrados e 2 doutoramentos. “Et pour cause…”
Meteu-se na minha cabeça que os investigadores devem compreender os princípios da comunicação na área da ciência, antes de trabalhar em sistemas reais. Quando a comunicação não é nada, mas apenas teoria, os investigadores abandonam o seu núcleo duro de informação e ficam a «nadar» nos laboratórios, mostrando grande insegurança no explicar como todas as peças do projecto se encaixam. Eles sabem como manipular equações, mas não têm grandes ideias sobre como funciona um sistema real.
Tenho pedido aos investigadores (FC) que, durante as reuniões de projecto, apresentem a teoria e a sua aplicação ao mesmo tempo. Os cientistas – muitos deles são isso mesmo – devem utilizar ferramentas computacionais para a concepção e teste das suas propostas de solução do problema. O aperfeiçoamento destes profissionais nas técnicas de simulação permite-nos a todos, uma melhor ligação da teoria à aplicação concreta e tudo isto em ambiente interactivo.
O investigador que está a proceder a uma apresentação do seu trabalho em curso pode responder a uma pergunta em plena palestra, por exemplo, executando uma simulação. Os seus colegas de projecto podem ver a teoria consubstanciada no sistema, visualizada no ecrã. Podemos pedir para prever o que irá acontecer se mudar ou não esse parâmetro, e/ou em seguida, mostrar os resultados de cada alteração produzida. Desta forma, a teoria torna-se palpável (‘tangível’), e alguns de nós, ficamos menos intimidados com a matemática.

Nem sempre os actuais investigadores da ciência, aplicada ou não, entendem os objectivos da filosofia da ciência, que são descrever, explicar, fazer entender o que outros fizeram e como fizeram isso, demonstrando que foi muito bem feita a investigação básica até aí levada a cabo. Por conseguinte, para alcançar este objectivo, há uma classe de filósofos que olham de volta as grandes conquistas na evolução da ciência moderna.
O Romantismo via o objectivo da ciência como entendimento interpretativo, que é uma ontologia mentalista adquirida pela introspecção. Chamaram a uma linguagem contendo esta ontologia “teoria”. A ciência com maior sucesso no plano objectivo das humanidades é a economia que, desde o desenvolvimento da econometria (Schumpeter anos 40), permite previsão (forecasting) e política, assim, o objectivo das humanidades passa a estar misturado com as ciências naturais no seu objectivo de previsão (prediction) e controlo. Em breve voltaremos ao método da Econometria, até porque uma das encomendas importantes ostentadas na carteira de projectos é precisamente a construção do Modelo Econométrico da Indústria dos XYZ.
Andar de cá para lá e de lá para cá com o livro de Kuhn traz-nos de volta ao puzzle, sempre novo, da relação entre metodologia normativa da ciência e história positiva da ciência. O puzzle é mais ou menos este (escreverei pelo lápis de Blaug): acreditar que é possível escrever a história da ciência «como ela de facto ocorreu», sem de qualquer modo pré-julgar a distinção entre ciência «boa» e ciência «má», sem quaisquer noções prévias de uma prática científica sã, é cometer a falácia indutiva na redacção da história intelectual. Se o Popper está certo quanto ao mito da indução, aqueles que querem «contá-la como é» acabarão por contá-la «como deveria ser»: ao contarem a história de desenvolvimentos passados de um modo em vez de um outro, estarão a revelar implicitamente a sua visão da natureza da explicação científica. Ou seja, todos os enunciados na história da ciência estão metodologicamente comprometidos.
Por outro lado, pareceria que todos os enunciados sobre a metodologia da ciência estão também metodologicamente comprometidos. Pregar as virtudes do método científico, enquanto se ignora totalmente a questão de saber se os cientistas, de hoje ou os do antigamente, praticaram de facto esse método, é seguramente arbitrário; além disso, na prática, até para Popper é impossível resistir à referência à história da ciência como uma justificação parcial das suas concepções metodológicas. Parecemos, pois, estar enleados num círculo vicioso, que implica a impossibilidade tanto de uma historiografia da ciência totalmente descritiva e metodologicamente isenta, como de uma puramente prescritiva e não-histórica metodologia da ciência. Discutindo o paradoxo do teste de uma metodologia científica pelas práticas dos cientistas, Medawar (1967) notou: “Se assumirmos que a metodologia é incorrecta, também o serão os nossos testes da sua validade. Se assumirmos que é correcta, não adianta submete-la a teste, pois os testes não poderão validá-la.”

Anúncios

Deixe um Comentário »

Ainda sem comentários.

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

w

Connecting to %s

Create a free website or blog at WordPress.com.

%d bloggers like this: